Essa é uma história escrita por +Maya Fassina, que conta como os Clãs da comunidade "Gatos Guerreiros Roleplay" foram criados.
O Sol já descia pelo horizonte. O céu estava começando a escurecer e se tingir de um azul profundo; logo chegaria a hora do pôr-do-sol, depois, o crepúsculo e, enfim, a noite. Uma gata manchada de cintilantes olhos verdes observava tudo em frente de uma toca. Era Mancha Folhada, a jovem curandeira do Clã da Montanha. Sua cauda felpuda estava enrolada em torno das patas, e ela estava de certo modo trêmula. Uma brisa fria e nem um pouco reconfortante fazia-lhe tremer até os ossos. Tudo isso significava que a Estação sem Folhas continuava firme, forte e, acima de tudo, fria e impiedosa. Era a pior Estação de todas, em que os gatos ficavam doentes e as presas fugiam com o frio e a neve. A gata olhou tristemente para uma toca logo atrás dela, a Toca dos Curandeiros do Clã da Montanha, onde um vulto estava encolhido em uma cama de musgo e que os tossidos e espirros quebravam o silêncio da tarde.
Arbusto Pintado sempre fora um ótimo curandeiro. Uma das suas características mais marcantes era a língua afiada, além dele ser um velho rabugento. Alguns não tinham muita paciência com ele, mas todos reconheciam que o gato era mestre em questões de cura. Apesar de tudo, Mancha Folhada adorava aquele monte de pelos reclamão. Ele era seu mentor e um dos seus gatos mais queridos. Mas agora ele fora infectado pela tosse verde, uma doença fatal que podia se espalhar facilmente na época da Estação sem Folhas. No começo, podia parecer um leve resfriado, mas a realidade é que a tosse verde poderia até matar. Muitos conseguiam se salvar, mas outros…
Arbusto Pintado pegou a tosse de um dos infectados e agora estava fraco, mas ainda insistente. Ele dizia para a gata, Mancha Folhada, não se aproximar. Ele conseguia se tratar sozinho, ou assim alegava. Mas Mancha Folhada não acreditava nisso, e cuidava dele, mesmo com os protestos, tomando cuidado para não se infectar também.
Mancha Folhada havia sido nomeada curandeira há algum tempo, apesar de ser tão jovem. Ela era realmente mais popular que o mentor. Bonita, responsável, educada e no auge da juventude. Mas, acima de tudo, triste. Claro, ela tentava não demonstrar, mas uma grande tristeza encobria seu coração. Sua querida irmã gêmea, Filhote Dourada, e seu pai, Voo de Pintassilgo, morreram quando Mancha Folhada ainda era uma filhote animada e ingênua, intoxicados pela fumaça de um incêndio que varrera o Clã da Montanha. Era estranho ocorrer um incêndio no clã, que era cheio de encostas, montanhas, rochedos, picos e penhascos. Mas aconteceu, e nem todos se salvaram. Mancha Folhada nunca esqueceria aquela cena, e prometeu que não deixaria mais ninguém morrer, e assim virou aprendiz de curandeiro.
Então, ela ouviu passos. Mas não era Arbusto Pintado, pois este dormia profundamente. Não, era outro gato. E vinha do berçário. Mancha Folhado o reconheceu assim que viu seu vulto: Filhote de Galho! Filho de Pluma Cinzenta, mãe da curandeira manchada, e de um gato desconhecido. Assim, ambos eram meio-irmãos, mas se amavam tanto que pareciam ser irmãos de verdade. Pluma Cinzenta era uma gata de pelo cinza e luminoso, além de olhos âmbar-acastanhados. Filhote de Galho tinha olhos verdes assim como a meia-irmã, e uma pelagem castanha, com o rosto acompanhado de pintas mais escuras. Ele não parecia com a mãe, e provavelmente puxou as características do pai misterioso.
— Mancha Folhada! — chamou o pequeno gato, pulando sobre suas patas e se encolhendo nelas.
— Volte aqui, Filhote de Galho! — gritou Pluma Cinzenta de cenho franzido, mas logo suavizou o olhar ao ver Mancha Folhada. — Ah, olá, jovem curandeira.
— Olá — cumprimentou a gata. Filhote de Galho ergueu a cabeça e olhou para a irmã.
— Conta uma história para mim, 'Folhada'? Por favor.
— Uma história? — repetiu Mancha Folhada, arqueando uma sobrancelha.
Pluma Cinzenta empurrou delicadamente o filho das patas de Mancha Folhada com o focinho. Ela lambeu-lhe a cabeça, mas ainda com um olhar de reprovação para ele.
— Ele falou que você contava as melhores histórias — explicou ela.
— E é verdade! — interrompeu Filhote de Galho, mas silenciou-se com o conhecido olhar de "fique quieto" da mãe. Pluma Cinzenta podia ser severa às vezes, mas era bondosa e carinhosa, acima de tudo.
— Bem, ele quis ir até você, pois estava com vontade de ouvir algumas histórias — continuou a rainha. — E prometeu que ficaria quieto. Mas eu não tenho certeza. Quer dizer, está quase na hora de dormir, mas esse pequenino não para de ficar pulando para lá e para cá!
Filhote de Galho desviou o olhar sem-graça ao ouvir a mãe.
Mancha Folhada suspirou e deu um sorriso gentil para ambos.
— Eu posso contar uma história para ele. Já tratei de Arbusto Pintado — ela pausou, sentindo tristeza ao lembrar da doença que o mentor estava sofrendo. — Podemos dizer que eu estou "livre".
— Oba! — soltou Filhote de Galho. Mas logo se encolheu ao perceber que havia falado. — Desculpe.
Ele realmente está levando essa história de ficar quieto muito a sério, pensou Mancha Folhada, divertindo-se.
Pluma Cinzenta o ignorou e olhou no fundo dos olhos da filha mais velha:
— Tem certeza? Você não está cansada? Eu não quero atrapalhar.
— Eu estou bem. E faço qualquer coisa para o meu meio-irmão querido — ela lambeu a orelha de Filhote de Galho com carinho, que deu uma risada aguda, típica de filhotes.
— Se você diz… — Pluma Cinzenta se virou para o filho mais uma vez. — Não faça bagunça enquanto ela contar a história, seja qual for, está certo?
— Sim!
— Ótimo — ronronou a rainha cinzenta.
Mancha Folhada hesitou e olhou para a toca. Dois olhos amarelados a fitavam. Arbusto Pintado havia acordado. Ele tinha pelo cinza como Pluma Cinzenta, mas mais desarrumado. Apesar de já estar de certo modo crescida para fazer as próprias escolhas, a curandeira procurava aprovação nos olhos do antigo mentor. Mas ele apenas disse com a voz rouca:
— O que você está olhando? Eu sei que sou lindo, mas ficar me admirando parada não vai mudar nada!
A jovem riu com a ironia do mentor, que não pode segurar o sorriso carinhoso. Que belo par de mentor e aprendiz eles faziam!
— Que história você vai contar, 'Folhada?' — perguntou Filhote de Galho, aninhado na mãe e na sua cama de musgo. Mancha Folhada estava logo ao lado, observando os outros filhotes. Um deles, Filhote de Salgueiro, um gato mais velho que Filhote de Galho, sofrera um acidente ao se aventurar nas montanhas muito jovem, e quebrou a pata. Ele a interessava, apesar dela ainda sentir pena dele. Filhote de Salgueiro com certeza gostaria de ser um guerreiro, mas esse sonho acabara.
Mancha Folhada se voltou para o meio-irmão.
— Hum… que tal… — ela começou, pensando. Uma folha carregada pela brisa fria da estação, como que flutuando em um rio de vento, lhe chamou a atenção.
— Qual? — insistiu o filhote.
Até Pluma Cinzenta estava curiosa. Mancha Folhada olhou para eles com um sorriso, já sabendo qual história iria contar, e começou a narrar, com uma voz nem muito lenta, nem muito rápida. Uma voz cheia de mistério e emoção, e digna de uma contadora de histórias, ao mesmo tempo que as outras rainhas e filhotes se aproximavam para ouvir também, e em que a folha flutuava até os céus escurecidos pela noite…
Esta história que irei contar aconteceu de verdade, há muito e muito tempo. Um tempo em que não existiam clãs, não existiam códigos de honras e nem classes complexas como de hoje, seja aprendiz, guerreiro, curandeiro, filhote, ancião ou representante. Quem sabia curar, curava. Quem sabia lutar, lutava. Os gatos selvagens se reuniam em tribos ou grupos, cada um com suas regras e líderes, e saindo em jornadas perigosas em busca de um destino incerto e lugares aleatórios para morar, mesmo que seja por pouco tempo. O Clã das Estrelas não era conhecido por ninguém, e não tinha essa história de nove vidas, que para eles era uma bobagem total, inventada para fazer os filhotes dormirem. Não, existiam conflitos e guerras sangrentos entre os grupos, por territórios ou pelo simples fato de não irem com a cara um do outro. Era um caos total. Porém, foi em um desses grupos desorganizados que começamos essa história, em uma toca acima de uma encosta particularmente inclinada, em que a brisa do amanhecer varria as montanhas, dando início ao sol nascente, levando consigo uma folha que flutuava sobre o vento suave…
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